sábado, março 15, 2014

Arte e não arte

Fui desafiada.
Pra começar a falar desse assunto e se fazer entendida é preciso traçar uma linha histórica da arte pra explicar a que ponto chegamos. Vou tentar resumidamente fazer isso pra que o leitor não se canse.

Mas quando foi que começamos a dar nome de arte? Foi um pouco depois do renascimento. Nada antes era arte. Era outra coisa.

Acontece que o homem das cavernas começou com isso tudo. Através de seus ritos espirituais, capturando imagens de animais e as pintando nas cavernas, fez registro de sua passagem pelo planeta. Depois da pré-história, chegamos às grandes civilizações e suas grandes construções, e por fim, os egípcios. Aí nós temos mais um marco importante, a começar pelo cânone, regras estabelecidas para as imagens a serem registradas, a saber, o corpo era pintado frontal e a cabeça de perfil. Esculturas rígidas, e nada disso era arte. Ou pelo menos os artífices só obedeciam ao faraó, entregavam suas encomendas. (Tal qual...)

Seguindo, temos para história do ocidente mais outras duas grandes civilizações Grécia e Roma. A religião era a grande função da vida dos cidadãos, é na Grécia que se fala em democracia, início dos jogos olímpicos arquitetura de ponta e nada de arte. Na Grécia os artífices também ficavam por conta de esculpir deuses e deusas, construções de grandes templos, pinturas em ânforas, e ainda temos Pompéia, onde foram descobertos alguns afrescos com certa perspectiva.

O próximo grande marco é o declínio de Roma, crescimento do Cristianismo, que nos dão nomes aos próximos períodos do que HOJE chamamos de arte. Pinturas nas paredes eram os primeiros vestígios de que a imagem era usada para o ensino dos iletrados cristãos convertidos. Trezentos anos depois temos o cristianismo como religião oficial do império, e com isso os cristãos passam a reunir-se em templos chamados basílicas, edifício de arquitetura simples por fora e mosaicos por dentro. Muitos mosteiros e iluminuras depois, vamos chegar aos vitrais góticos e esculturas esguias nas portas das igrejas e também os “gárgulas” em suas enormes torres. E é muito provável que aqui os artífices comecem a assinar suas obras.

Séculos e séculos se passam e os artífices são invadidos por um conceito cultural social que invade a Europa, o Renascimento. A religião não era o centro, o homem era. Isso vai se refletir nas produções dos artífices, mas ainda se tem encomendas, seja do poderio papal da igreja ou dos burgueses, os agora artistas respeitam códigos, tratados e entregam encomendas de projetos arquitetônicos, pinturas, esculturas e etc.
 E então com a reforma protestante, a igreja se vê capaz de exagerar, o barroco. A forma curvilínea, o teatro, a luz e sombra e a companhia de Jesus, os Jesuítas.

E o rococó? A burguesia que já não tinha interesse nas promessas de vida após a morte por meio das obras, já não tinha tanto medo do inferno, se lançam sobre a vida frívola dos amores, passeios, e isso tudo registrado por artistas que já frequentavam escolas de arte.

E daí em diante algumas tendências estéticas surgiram,
o neoclassicismo, realismo, impressionismo, expressionismo, futurismo, cubismo e esse modernismo todo fez os artistas, em sua maioria donos de si mesmos, de suas obras, de seus pensamentos, suas expressões. Quem mandava aqui era o artista. Sobreviveram. 

Mas o que me impressiona é o dadaísmo de Duchamp, que fadigado de séculos de artistas, se posicionou contra o sistema de arte de elite e agora em um museu coloca um mictório de cabeça pra baixo, assinando com outro nome, aqui nós temos o read made, as grandes manifestações durante a guerra e também pós guerra. Temos questionamentos profundos sobre quem é o artista e o que é arte. 
Temos Monalisa de bigode e tantas outras coisas importantes pra arte moderna e contemporânea, até chegar em Pollock com expressionismo abstrato, sua ruptura com a pintura, usando outro tipo de pincel, temos a action painting, a pintura gestual, a performance. É tanta coisa! Passamos pelo concretismo, o surrealismo, pop art, op art, a land art, o grafitti e chegamos à contemporaneidade. Já estávamos nela desde os anos 60 com a pop arte desafiando a Arte a ser popular, acessível e democrática.

Chegamos a Romero Britto. Considerado artista por grandes empresas multinacionais. Pelo governo brasileiro e por pedagogas.
Fazendo a arte ser acessível, popular e democrática. Nesse caso, ela está nos sapatos, nos copos, nas capas de cadernos. Isso porque a imagem dele é simples, entendível, banal.

Não tem reflexão, não tem expressão. É fofa d+ pra ser arte. Na arte tem sangue, ela pulsa, envergonha, esclarece, joga na cara. Faz a gente não querer ver algumas vezes, bate de frente com nossa hipocrisia de democracia, de movimentos sociais. Ela estuda a vida, desafia o corpo.  A arte é um palavrão.

O que ele faz não tem nada haver com a acessibilidade de arte para leigos e democracia.Não tem nada haver com a popularidade Andy Warhol.

O que faria uma obra ser popular e alcançar todos os públicos? Seria um milagre em escala mundial. Não é possível agradar a todos, a arte não é pra agradar. Não é só pra ser bela, mas também pode ser. Não é arte com A maiúsculo como diria Gombrich.

Mas essa é a minha opinião, que não tem importância nenhuma. 


Karol Flegler