sábado, janeiro 24, 2015

Então, quem foi?

João era um menino humilde da favela, tinha mais 3 irmãos, todos homens, sua mãe era uma mulher que lavava roupa pra fora, pra uma dona da baixada, o pai... bom, não tinha pai. Que grande sorte a do João, que conseguiu por meio de sorteio, uma vaga na escola pública!

João crescia, brincava na rua, de vez em quando sua mãe o levava pra casa da dona onde pegava roupa pra lavar, lá na baixada. João via todo dia, as vitrines bonitas das lojas, os carros que passavam, as grandes construções históricas. O menino, era pura esperteza. Certo dia, ao chegar na casa da tal dona, viu sobre a mesa da cozinha um pão, passou a mão, colocou dentro da bermuda, já que nem bolso tinha. Na casa da dona, uma guria  que de tão distraída com seus brinquedos nem notou a presença de João, o ladrão de pão.

Um não belo dia, a dona disse pra mãe de João que não ia mais precisar dos serviços dela. João parou de estudar, teve que ir junto com seus irmãos pra rua, vigiar carro, vender bala. João, ia pra cidade, via as vitrines, os carros e as grandes construções históricas, onde ele não poderia entrar descalço. Aí João, teve uma grande idéia. Ele estava exausto de todas as vezes que chegava em casa e não tinha pão. Ele resolveu então, junto com seus irmãos, roubar pão.

João ficava escondido próximo à padaria da esquina da baixada, toda vez que alguém entrava na padaria, João já ficava de olho,  João  seguia até a casa, entrava escondido e roubava o pão. Em uma semana, João roubou mais pão do que poderia comer... deu pão pros seus irmãos, pros amigos e ... João foi pego pela polícia. Preso, de menor. Todas as vítimas reconheceram João. Em um coro uníssono cantaram:

- João roubou pão (...)
- Quem eu?
- Sim, tu!

João ficou preso por algum tempo, depois saiu, começou a roubar de verdade. E é, claro, como quase todo negro da favela, virou mais um número no índice.

Mas a grande pergunta que não quer calar é: QUEM FOI QUE ROUBOU O PÃO NA CASA DO JOÃO?


Karol Flegler

quinta-feira, janeiro 22, 2015

SELFIE


Em termos gerais, Selfie, do inglês “EU”, brasileiramente falando “mim mesmo”, ou corretamente falando, “eu mesmo”, significa hoje em dia, fazer uma foto de si mesmo, mas não só isso, a selfie demarca um território momentaneamente vivenciado por aquele individuo que quer provar pra todo mundo que ELE esteve ali mesmo, NAQUELE lugar. Mais importante do que fazer uma foto de uma paisagem, pros viciados em selfie é provar que ELEs estiveram ali. Muito embora não seja uma coisa tão nova, “bombou” nos últimos anos por conta das redes sociais e do tal vício de “expor o cotidiano”.

Na história da arte, contemplamos os primeiros selfies de pintores, o que chamamos de autoretrato. Mas penso eu, que a pintura era mais simples de manipular, já que ela não dependia do “aqui e agora” das redes sociais... Era uma parada em longo prazo, por isso mais simples de manipular. Mas nós todos sabemos que algumas das pessoas que trabalham com ARTE, gostam da verdade ou manipulam com um propósito. Quero dizer, como designer, poderia fazer uma carteirinha de estudante falsa, por exemplo, falsificar documentos, mas não o faço por uma questão ética e moral. Como artista poderia plagiar Romero, mas não o faço porque é muito ruim. (risos). A grande questão é que os artistas são manipuladores, mas preferem não fazer pela ética e pela arte. Mas essa é só uma pequena parte, que não tem nada a ver com o que quero dizer.

Bom, voltando à “Selfie”... me lembra um certo mito grego: NARCISO, que embora haja algumas versões sobre a mesma história, prefiro contar a que faz sentido pro texto. Em resumo, a história conta que Narciso era filho de um deus com uma ninfa e que fora aconselhado a nunca olhar para sua própria imagem.

Narciso era uma das criaturas mais lindas já existentes. Por causa de sua beleza, as mulheres ficavam encantadas pelo jovem mancebo”.

Mas a questão que um dia, Narciso – o lindo, resolveu por algum motivo olhar para o reflexo de sua imagem bela e inebriante na água e ... puf, morreu afogado e sua própria imagem?! É isso mesmo produção?!


Pode não ter sentido nenhum pra você. Pra mim, tem.

A selfie proporciona olhar muitas vezes para própria imagem, tantas quantas um espelho, a grande diferença é que o espelho não está na rede (ainda). Viciados em sua própria imagem, inebriados e embriagados por sua própria “beleza”, tão cegos e tão concentrados em si... que talvez um dia cheguem a mesma conclusão de Narciso: o fundo. Por que é lá no fundo que nos encontramos.Tomara que a selfie mostre quem somos, não o que demonstramos ser. Tomara que de tão imersos em nós cheguemos à conclusão de tão pequenos e dependentes somos. . .




Karol Flegler