segunda-feira, setembro 26, 2016

PRA Q ARTE?

Já dizia um amigo meu que o mundo gira.

Polêmicas a respeito das alterações nas disciplinas no ensino médio e “notório saber” levaram os professores à loucura na última semana. É bem verdade que a alteração foi proposta no governo passado, mas não chegou a ser publicada “com erro” no diário oficial.

E daí? Daí que eu formei em artes, meu querido. Mais precisamente em licenciatura de Artes Visuais pela Federal do ES.

Quando eu era guria sempre me apaixonava pelos professores. Mas isso não vem ao caso. A questão é que eu tive um professor de história que em seu primeiro dia de aula, na oitava série, iniciou com uma projeção de uma imagem (que hoje não lembro mais qual era). Ele projetou a imagem e questionou: Qual a importância da história?

Confesso que já estava há anos na escola e não tinha me dado conta da importância. Ele fez a gente descrever a imagem. Tratava-se de uma imagem, cena em primeiro e segundo plano, Anjos olhavam pro segundo plano. Só me lembro da máxima: “precisamos conhecer o passado para não repeti-lo”. É que os anjos olhavam pro passado com pesar. Não lembro muito, já fazem uns 15 anos. A questão é isso me marcou, sempre adorei história, histórias, e minha primeira tentativa pro vestibular depois de 3 anos de ensino médio na escola pública foi para o curso de história, e eu não passei nem na primeira fase. Claro, eu só dormia. DEPOIS tentei artes e na quarta vez, passei. Veja só. Nem é tão difícil passar em artes. É mais difícil passar na disciplina de História da arte do Brasil fazendo prova oral.
Quando eu entrei na universidade havia acabado um curso técnico de design gráfico que me deu uma noção geral de arte, publicidade, leitura de imagem, e muitas outras coisas. Aí fui pra faculdade pensando que em artes eu ia fazer tipo a mesma coisa que no design. E aí eu fui enlouquecendo e me perguntando pra que serve arte? Eu sei que eu gosto, mas eu gosto de desenhar parede de casa. E aquela pergunta não me abandonou a graduação inteira. E DURANTE todo o curso eu buscava justificativa pra arte. Um dia num debate, um professore sugeriu uma hipótese já dita por outros pensadores: “A arte descortina a visão”. É como se todo homem que não tem acesso a alfabetização visual fosse um cego de nascença. Mas eu não digo apenas sobre artes plásticas, digo a música, a dança, o teatro, a performance, o vídeo, e tantos outros meios de arte. Manifestações culturais, material, imaterial humano. A ARTE é o que faz de nós humanos, é um grito quando a alma silencia. Eu viajo, eu sei.

Tempos atrás eu estava dando aula numa escola. Sentada na famosa sala dos professores, tomei um susto. Lembra-se do meu professor de história? Pois ele estava lá, era “meu amigo de trabalho”. Falei com ele sobre como a aula dele foi importante e é óbvio que ele não se lembrou d mim, mas ele se lembrava da aula.

Passei anos respondendo meu questionamento. Busquei as respostas no ensino, na publicidade, na psicanálise. Encontrei todas as respostas e cada uma das propostas.

Quando se trata do ensino da arte, é preciso dizer e martelar até entrar na cabeça dos guris.

A arte é pra você ver o mundo com os olhos de outro alguém que viveu mais, diferente e intensamente. Vai explicar por que um cara simplesmente caga na latinha e vende milhões. Vai explicar “o grito” de Much, Vai explicar Monalisa. Você fala da obra, do artista, do tempo em que aconteceu, do que pode acontecer. Explica pra esse ser que ele pode até fazer medicina, mas ele precisa saber a cor do sangue. Explica música, fala que ele pode dançar. Fala que a criatividade humana não tem limite e que qualquer projeto antes de ser executado é desenhado. Fala da poesia e de como a rima faz o rap e de onde é, por que existe o racismo. Discute as diferenças sociais. É pra isso que serve a arte. Por isso ela não pode ser extinta das redes de ensino. A menos que se queira robôs. Aí ...

Karol Flegler



2 comentários:

  1. Imensamente inundada em respostas que nós amantes da "criação" buscamos enquanto sentimos, observamos, analisamos, experimentamos e tentamos ensinar.Um compartilhar genoroso seu, karol. Posso compartilhar?

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